Desta vez, os americanos ficaram mesmo para trás. Desde 2015, os brasileiros descobriram em Portugal algo mais valioso do que permanência: possibilidade. Fatores económicos, sociais e políticos fizeram com que a população brasileira em Portugal crescesse, segundo dados do SEF, de 84 mil para uns estimados 330 mil em 2025. E não fora a atual turbulência no discurso e nas políticas de imigração, esse número poderia ser ainda maior.
O mais surpreendente? A população americana residente em Portugal cresceu mais de 500% nesses mesmos dez anos — uma taxa ainda superior à dos brasileiros e que não dá sinais de estar a baixar. Mas não é só o número que importa. É o que ele revela, é o que leva pessoas de dois países tão diferentes encontrarem um ponto comum em Portugal.
Podemos dar-lhe muitas voltas, mas quando alguém deixa o seu país, as suas raízes e todo o seu ecossistema para se radicar noutro local a dez horas de distância, das duas uma: ou foge de alguma coisa, ou procura alguma coisa melhor que não consegue alcançar onde está. E quando americanos e brasileiros escolhem o mesmo destino, com motivações diferentes mas conclusões idênticas, algo muito grande está em jogo e isso revela muito do que nós, portugueses, somos.
Portugal já não é apenas um destino de férias. Transformou-se num refúgio estratégico. Os brasileiros reinventam-se em Portugal tendencialmente como empreendedores, artistas e estudantes ao mesmo tempo que reconquistam a segurança das ruas e a certeza das políticas. Os americanos chegam, por sua vez, como nómadas digitais, investidores e reformados ativos, largando o país dos sonhos para vir sonhar novamente para o nosso. Diferentes pontos de partida, mesmo ponto de chegada. Portugal é hoje simultaneamente o palco de segundas vidas e primeiros recomeços.
O Despertar dos Americanos
Os americanos são pioneiros em quase tudo. Inventaram Silicon Valley, exportaram o sonho, colonizaram o entretenimento global e transformaram o mundo em mercado. Quando decidem, decidem em força e na “terra dos sonhos” força significa também meios. Desta vez… não chegaram tarde, mas chegaram bem mais tarde. Ainda assim, não tarde demais.
Ironicamente, foi em Portugal que os brasileiros conseguiram superar os americanos. Não em tecnologia, não em consumo, mas em visão.
Portugal, esse pequeno país à beira do Atlântico, foi descoberto pelos brasileiros muito antes do pico de procura americana que estamos a viver. Os brasileiros não foram a Harvard mas o seu instinto permitiu-lhes perceber qual seria o melhor sítio para viver. Desde 2015, os brasileiros perceberam que Portugal não era apenas uma alternativa — era uma solução. Muitos tinham necessidade de sair do Brasil para melhorar as suas vidas, mas vir para Portugal em vez de outras opções europeias foi uma opção muito além da mera coincidência da língua. E hoje são mais de 330 mil. A maior comunidade estrangeira. A mais enraizada e culturalizada. Pensar que os brasileiros procuram Portugal para empregos menores é um erro, porque o povo brasileiro é inconformado, mas também é ambicioso, habilidoso. Estão a escalar na cadeia de valor, deixando de ser meros funcionários, mas começando a implementar o que tanto os caracteriza – o espírito empreendedor.
Nesse aspeto americanos e brasileiros são muito parecidos no que toca a tirar as ideias do papel e fazer acontecer. Diferem muitas vezes nos recursos. Os americanos recolhem formas sofisticadas de investimento e análise para iniciar o seu negócio, os brasileiros iniciam o negócio “como der”.
Vieram de São Paulo e do Rio, sim — mas também de Manaus, de Belém, de Brasília. Vieram da Amazónia e do cerrado, do litoral e do sertão. Trouxeram o samba, o silêncio, a fé e a reinvenção juntamente com a própria pluralidade que a dimensão do Brasil oferece. Os brasileiros não vieram por modismo, mas por instinto. Porque o Brasil, com toda a sua vastidão, viu em Portugal algo que nem os algoritmos americanos tinham ainda detectado: um lugar onde se pode começar de novo sem apagar quem se foi.
Os americanos, por sua vez, demoraram mais tempo a perceber as vantagens que Portugal oferece. Talvez porque Portugal não aparecia nos rankings da Forbes a não ser recentemente. Talvez porque o algoritmo ainda não os tivesse empurrado para um destino improvável. Mas quando chegaram, chegaram em barda. Cresceram mais de 500% em dez anos e com uma taxa que tem aumentado. Espalharam-se por Lisboa, Porto, Braga e não só, mas claro é que não estão a invadir as praias do algarve e Alentejo, talvez porque para um americano do Texas, estar em Castelo Branco é estar junto à praia. O que começou por ser um destino de férias – e ainda o é já que os americanos são já o terceiro maior emissor de turistas em Portugal.
Ao contrário de muitos brasileiros, os americanos não vieram por desespero — vieram por escolha – e isso mostra muito do potencial que Portugal oferece e que por vezes nem os portugueses são capazes de identificar. Os americanos vieram porque Portugal entrega algo que possivelmente nem eles sabiam que procuravam: tempo, textura, confiança.
Não serão demais. Mas já são muitos. Os brasileiros ganharam. Foram os primeiros a ver. Os primeiros a apostar. Os primeiros a ficar. Mas a história ainda não acabou.
Investimentos brasileiros e americanos que transformam
Não se pense que dos Estados Unidos da América e do Brasil apenas recebemos pessoas. O destino das pessoas casa com o destino dos investimentos ainda que não seja relevante saber qual começa primeiro. Na verdade, mais e mais Portugal está no radar das grandes tecnológicas americanas. A sua localização como ponto de entrada de linhas óticas transatlânticas dá-nos uma vantagem competitiva brutal que começa agora a colher mais atenção com o desenvolvimento da IA e necessidade de infraestruturas. Somos a porta de entrada digital na Europa.
Não é por acaso que os americanos são dos maiores investidores em start-ups tecnológicas em Portugal mas já nem tudo se reduz a Hi-tech. Agricultura, banca, imobiliário e outros investimentos estão também a criar raízes.
Os brasileiros não ficam atrás e estão a enraizar-se ainda mais na economia portuguesa pela via da diversificação. São enormes os investimentos de grupos brasileiros em sectores como hotelaria e turismo, aeronáutica, serviços financeiros, agro industria, tecnologia entre outras.
Oito razões que nos tornam únicos
- Somos um povo integrador, que aceita as diferenças, que se molda aos estratos sociais, e que faz quem vem sentir-se em casa. Mais ainda quem vier por bem.
- Somos um povo humilde, e essa humildade dissolve barreiras e desarma preconceitos.
- Somos formados e apensos a “tentar” falar línguas. Atiramos inglês mesmo sem saber, ou o francês que aprendemos durante dois anos no liceu. Somos gozados por tentar falar tudo e não falar nada, mas a verdade é que somos ases da comunicação. Chegamos sempre lá, ajudamos até quem não entendemos.
- Somos um país de gente séria. Os chavões das primeiras páginas não representam o cidadão comum. Não vivemos para enganar nem de enganar estrangeiros. Somos confiáveis mesmo quando tantos querem fazer parecer que não somos.
- Temos uma política estável. A bem ou mal, somos considerados uma democracia exemplar. Os governos caem, mas o processo garante suavidade nas transições.
- Temos um clima suficientemente bom, equilibrando o sol, o frio, o vento e a chuva ao longo do ano. Somos um país com quatro estações e zero extremos.
- Temos infraestruturas estáveis. Não somos perfeitos, mas funcionamos.
- Temos um serviço público que funciona e que recebe os imigrantes com espírito construtivo. Se calhar até os tratando melhor do que os de cá — mas não me vou alongar nesse tema.
- Temos um pacote legislativo que funciona e é suficientemente dinâmico para se ajeitar, tal como a regulação fiscal.
- Temos uma força laboral qualificada e uma rede de ensino sofisticada e reconhecida.
O debate desvirtuado sobre imigração
A discussão sobre imigração está a atingir um nível tal que pode inclusivamente estragar a parte boa que a mesma tem.
O problema é que os ingleses, irlandeses, americanos, alemães, franceses, etc…não aparecem de forma depreciativa em vídeos do tik tok. Quando nos atiramos de forma estereotipada à presença de indianos e nepaleses como sendo a imigração má e alegando um descontrolo absoluto, esquecemo-nos que o número de indianos em Portugal não difere em quase nada o número de britânicos (cerca de 45 mil). Quando falamos dos bangladeshis, esquecemo-nos que são menos do que os italianos, são menos do que os franceses e mesmo menos do que os americanos no nosso país. A imigração em Portugal é absolutamente multicultural, como, aliás, são os portugueses, e essa é a nossa grande valia, que temos que fazer por não destruir.
Não há imigrantes maus nem bons, há imigrantes que fazem parte de uma sociedade evoluída e composta que se quer manter equilibrada. Falar de uns e esquecer dos outros não é nem justo nem honesto.
Um convite ao mundo
E se está a ler isto, talvez também tenha chegado — ou estejas a pensar em chegar. E desde já, bem-vindo.
Talvez seja brasileiro, americano, francês, britânico, ou simplesmente alguém cuja origem é irrelevante e venha apenas à procura de um lugar onde o tempo se estique e a vida se encolha menos. Portugal não lhe promete perfeição. Promete presença. Promete um chão onde se pode recomeçar sem pedir desculpa. Promete um povo que não te pergunta de onde vem, mas sim se quer café ou chá.
Porque aqui, o futuro não se impõe — acolhe-se. E se há quem venha por fuga e outros por escolha, o que importa é que ficam. E ao ficarem, tornam-se parte daquilo que Portugal é: um país que não se fecha — abre-se. Todos os dias. Com cada gesto, cada conversa, cada abraço que damos a quem vem por bem.
Artigo publicado na CNN. Veja aqui