Por ano, são produzidas cerca de 3610 toneladas de ouro. Destas, 380 vêm da China, 330 da Rússia, 284 da Austrália, 158 dos Estados Unidos, 202 do Canadá, seguindo-se Gana, México, Indonésia, Peru e Uzbequistão na casa das 140 toneladas, e restantes países abaixo, entre os quais o Brasil com 84 toneladas.
Mas quando olhamos para as reservas por país, o mapa inverte-se. Os Estados Unidos anunciam 8133 toneladas, seguidos da Alemanha com 3350, Itália com 2452, e depois França, Rússia e China em quase paridade mais tonelada menos tonelada. A Suíça surge com 1040 toneladas. E Portugal, discretamente, aparece com um quase surpreendente valor de 383 toneladas — mais do que o Brasil.
Não há, portanto, uma relação direta entre quem extrai e quem guarda. Mas deixemos isso para adiante.
O ouro que entra e talvez volte
Hoje, cerca de 300 toneladas de ouro são usadas anualmente na produção de chips e componentes eletrónicos, incluindo dispositivos médicos. E as estimativas são ambíguas mas claras: a produção de semicondutores deverá quase duplicar em valor até 2035, com algumas projeções a aumentarem este número. Mas o número de dispositivos, sensores e interfaces físicas poderá multiplicar-se muito além disso.
A cada dia surgem novas referências a encomendas colossais de chips — contratos bilionários entre fabricantes e gigantes da IA, centros de dados em expansão, planos de produção que já ultrapassam a capacidade instalada. A pressão sobre o fornecimento físico é real. E o ouro, não estando sozinho, está no centro dessa pressão.
A IA é tanto melhor quanto mais precisa for a sua ligação ao mundo físico. E essa precisão exige ouro. Não por fetiche, mas por função: condutividade, resistência à corrosão, estabilidade térmica. Em muitos casos, só o ouro serve.
É verdade que há investigação em curso sobre materiais alternativos — prata em certas aplicações, ligas avançadas, até grafeno em contextos experimentais. Mas o que essas alternativas mostram não é que o ouro será substituído — é que o ouro continua a ser o referencial técnico. Tudo o que se tenta desenvolver parte daquilo que o ouro já oferece.
A indústria tenta reduzir a quantidade de ouro por chip — e poderá conseguir fazê-lo. Mas quanto mais evoluída for a função do chip, mais exigente será a sua precisão. O que poderá acontecer — e já começa a acontecer — é uma redução do ouro por megabyte processado e não por chip produzido. Ou seja, mais eficiência por grama, mas não necessariamente menos gramas.
É como se o ouro deixasse de ser um ingrediente e passasse a ser uma enzima: invisível, mas indispensável. E mesmo que se recicle — o que já acontece e deverá crescer — o ouro que entra num chip não volta com facilidade ao ponto de origem. Requer processos industriais complexos, recolha eficiente numa utilização microscópica e cadeias logísticas que ainda não estão preparadas para o volume que aí vem.
Se esta tendência se mantiver linearmente — o que não é garantido — o ouro industrial ultrapassará o ouro-reserva até 2040.
Fort Knox ou Foxconn?
Se o ouro passar a ser um material essencialmente industrial — se toda a sua produção for absorvida por produtos acabados — então o seu papel como reserva de valor começa a ruir.
Reter ouro pode significar reter evolução tecnológica. Um banco central que guarda ouro poderá estar, sem o saber, a guardar obsolescência. O ouro deixa de ser escasso por natureza e passa a ser escasso por função. Deixa de ser símbolo de estabilidade e passa a ser matéria-prima de precisão.
Ouro, nesse cenário, é como o cimento de uma nova catedral digital: não se exibe, mas sustenta tudo. E ninguém guarda cimento no Fort Knox.
A IA como revolução física e financeira
A IA não é apenas uma revolução logarítmica. É uma revolução física. Cada avanço em inteligência artificial exige mais sensores, mais conectores, mais precisão — e mais ouro. A IA precisa de tocar o mundo, sentir, medir, reagir. E para isso, precisa de hardware. E o hardware precisa de ouro.
Os Estados emitem moeda para financiar aquisições estratégicas de chips. Se o ouro se tornar verdadeiramente escasso — não apenas caro, mas fisicamente indisponível — a capacidade de produzir semicondutores avançados fica comprometida. E sem chips, não há soberania digital.
A inflação deixa de ser apenas monetária: torna-se tecnológica.
O vazio monetário
Quando um ativo escasso transita de reserva para consumível, cria-se um vazio monetário e a história já o mostrou:
- A prata, que foi moeda durante séculos, tornou-se industrial — e perdeu o seu papel como âncora monetária.
- A platina, demasiado industrial desde o início, nunca chegou a ser reserva — apesar da sua escassez.
O ouro, ao ser absorvido pela indústria dos chips, pode seguir o mesmo caminho. E isso levanta a pergunta central deste artigo:
O que serve de âncora a um sistema monetário quando o lastro físico tradicional se dissolve?
Bitcoin como candidata — sob condições
A bitcoin é uma candidata plausível à nova bitola monetária — talvez a mais elegante matematicamente. Mas para que isso aconteça, várias condições teriam de ser cumpridas e muitas delas teriam que replicar o que se tem passado com o ouro. Não é inevitável. É condicional.
Reconhecimento institucional
Mais de 50% dos bancos centrais teriam de reconhecer a bitcoin como ativo de reserva. Hoje, apenas cerca de cinco países têm estratégias pró-bitcoin.O gap é enorme.
Estabilidade financeira
A volatilidade anual teria de cair abaixo dos 5% para funcionar como reserva estável. Atualmente, oscila entre 40% e 80%. Como chegar lá: mercados de futuros mais profundos, adoção gradual, tempo.
Integração industrial
Seria necessário ligar o processamento da IA a pagamentos em bitcoin via contratos inteligentes. Já existem projetos experimentais (Lightning Network, Layer 2), mas falta escala e confiança institucional.
Legitimidade energética
A mineração consome cerca de 0,5% da eletricidade mundial. Para ser padrão global, precisa de neutralidade ambiental.
A Bitcoin não está sozinha
Os bancos centrais não vão abdicar do controlo monetário facilmente. Cenário mais provável: sistema híbrido — CBDCs para retalho, bitcoin para liquidação internacional. “Ouros globais e locais”, portanto, mas há ainda vários outros cenários alternativos à bitcoin que se discutem nas câmaras de compressão:
Ouro tokenizado
Países criam tokens lastreados em reservas físicas de ouro. Circulam digitalmente mas mantêm lastro físico. Mais conservador, mais provável para bancos centrais tradicionais. O ouro usa-se via token e quem o tem já não o vê.
CBDCs dominam
Yuan digital, euro digital, dólar digital tornam-se padrão. Bitcoin fica marginal ou proibida em grandes economias. Controlo estatal prevalece sobre descentralização. Já não há ouro global.
Novo standard energético
Energia (kilowatt-hora) torna-se lastro universal. Faz sentido numa economia digital onde processamento = energia. Bitcoin perde porque não tem relação direta com energia útil do futuro, ainda que alguns pensadores (porventura maximalistas) se dirijam à bitcoin como pacotes de energia acumulada.
Nenhum standard único
Mundo multipolar com múltiplas reservas (ouro, bitcoin, CBDCs, cestas de commodities). Caos ordenado, como sistema de câmbios atual — mas amplificado.
Especulação versus realidade
Esta tese é altamente atacável, mas permite e pretende abrir o debate, até provas em contrário, quanto a uma teoria universal que junte AI, Ouro e bitcoin na mesma fórmula. A mim parece-me ter a beleza natural das fórmulas agregadoras.
O ouro está a deixar de ser reserva para ser função. Isso é observável e mensurável. O que ocupará o lugar do ouro como âncora de valor é a grande questão em aberto e quem o conseguir prever ganhará.
A bitcoin é uma candidata plausível — talvez a mais elegante matematicamente. Mas não é a única, nem sequer a mais provável politicamente se quisermos ser rigorosos.
O que é certo é isto: a transição já começou. E quem controlar a resposta a esta pergunta — que ativo escasso ancora o valor numa nova economia digital? — controlará a arquitetura financeira do século XXI.
Ouro já não é ouro. E dinheiro, em breve, pode deixar de ser o que conhecemos.
Artigo publicado na CNN. Veja aqui