A génese tribal da Internet
A Internet — ou World Wide Web — começou de forma híbrida, tão tribal quanto espiritual e assente num modelo económico inexistente. Entre 1995 e 2000, viveu-se um fervor absoluto. Grandes investimentos, empresas novas a surgir em catadupa, e um mercado efusivo mas sem qualquer perspectiva de monetização. Muitos entraram de cabeça nesse novo mundo e, em muitos casos, nunca mais voltámos a ver as suas cabeças.
Era um mundo eletrizante. Os utilizadores não pagavam nada mas parecia que recebiam tudo: emails, dados, aplicações, jornais, tudo. Pagavam apenas a ligação ao operador e os dados consumidos – fosse onde fosse. Este era o pecado original de monetização: a Internet tornou-se uma ferramenta de marketing e publicidade de massas assente em estatística. Os utilizadores cediam dados em troca de promoções, mas quem pagava o sistema eram as empresas — não os utilizadores que desfrutavam dele.
A bolha da Internet: sem receita, sem futuro
O entusiasmo inicial não resistiu à realidade económica. Sem receita, sem cliente pagante, sem produto claro — a bolha da Internet estava condenada a rebentar.
Entrar num mercado sem qualquer perspectiva de monetização direta retirava às empresas a capacidade de projectar receitas e futuro. As agregadoras controlavam o mercado, enviando clientes de um lado para o outro com base nos patrocinadores que pagavam mais. Mas não se constrói um modelo de negócio sobre leilões voláteis. Muitas empresas acabaram no meio do oceano a tentar vender botas de inverno.
A bolha da IA? Não é a mesma fórmula
Hoje, muitos olham para a IA com o mesmo ceticismo. Mas há uma diferença estrutural: desta vez, há produto, há cliente, e há receita. E isso muda tudo!
A IA vive num modelo de monetização directa. As empresas desenvolvem produtos e lançam-se num mercado de subscrição que os utilizadores aceitam confortavelmente. Pense em ChatGPT Plus, Copilot, Baidu, Alibaba, Cloud, ou mesmo nas funcionalidades premium do Midjourney. O ChatGPT gerou 3,7 mil milhões de dólares (cerca de três mil milhões de euros ao câmbio atual) em receita anual recorrente em 2025, mas mais importante é o facto de ter alcançado 700 milhões de utilizadores semanais, enquanto o Copilot alcança os 100 milhões de utilizadores.
O mercado global de “AI as a Service” está projetado para crescer cerca de 40% ao ano até 2029, atingindo 76,18 mil milhões de dólares (65,6 mil milhões de euros) em 2029.
O risco da IA não é sobre se vai ter clientes — é sobre se vai ter produto. Quem tiver produto, terá clientes dispostos a pagar por mês, por ano, por click ou por byte.
Nem tudo é escalável: os limites do modelo IA
Mas não é tudo linear. A IA enfrenta desafios reais — técnicos, energéticos, regulatórios. E nem todos os modelos são sustentáveis.
Os custos de treino explodiram — o GPT-4, por exemplo, terá custado mais de 100 milhões de dólares (86 milhões de euros) a treinar. A infraestrutura energética e computacional não quadram, e o consumo de recursos é cada vez mais difícil de justificar em modelos abertos e massificados. Além disso, as subscrições ainda são minoria: o ChatGPT Plus conta com cerca de 15 milhões de subscritores pagos, num universo de mais de dois mil milhões de utilizadores totais, mas capazes de já gerar as receitas projectadas de 20 mil milhões de euros no final deste ano. Nada parecido aconteceu nos inícios da Internet. E há ainda o risco regulatório — o AI Act da União Europeia impõe restrições severas à utilização de dados e à opacidade dos modelos, enquanto nos EUA prosseguem investigações antitrust contra a Google e outras plataformas.
Críticos como Gary Marcus argumentam que os modelos de linguagem são uma commodity, incapazes de raciocínio robusto e com retornos decrescentes. Mas os dados empresariais contam outra história. O Microsoft Copilot for Enterprise, vendido a 30 dólares por utilizador por mês, já representa muito da receita de IA da Microsoft — prova de que a personalização e integração institucional estão a transformar o que parecia genérico em produto premium.
O cliente mudou — e isso muda tudo
A verdadeira diferença está no contrato. O cliente já não é um alvo estatístico — é um utilizador com agência, disposto a pagar por soluções.
A onda de pessimismo que se instalou nos mercados, ao evocar os esqueletos da bolha da Internet, pode não ser justificada. Porque o cliente não é o mesmo. E a interdependência também não. O cliente já não é o patrocinador — é o utilizador. E isso muda tudo.
As empresas de IA podem ter encontrado, pela primeira vez, forma directa de monetizar massivamente a Internet e a enormidade de dados que por ela circulam. Os motores de busca estão a perder influência. Os utilizadores já não querem opções — querem soluções.
Fragmentação e fim da escala como vantagem
A IA não precisa de escala para funcionar. E isso muda radicalmente o jogo — porque pela primeira vez, os pequenos também podem competir com os grandes.
A revolução digital pode ser tão profunda que, pela primeira vez, se perde o efeito de escala que sempre alimentou os maiores a serem maiores. No tempo dos motores de busca, a escala definia a prioridade. Nos modelos de IA, não. O sistema é pragmático e responde igualmente bem em pequena ou grande escala.
Pequenas startups também podem fazer o seu caminho sem serem engolidas, e isso também assusta os grandes. O sistema velho vai fazer reset porque os dados do passado, que alimentavam o negócio e estavam na posse dos grandes, caminham a alta velocidade para o obsoletismo. Os dados mudaram, os dados agora também vêm da interação com o utilizador e a qualidade dos utilizadores também vai entrar para as contas da qualidade dos dados. A quota da Google no mercado de publicidade caiu 5% ano ficando pela primeira vez abaixo dos 90% em 2024 enquanto assistentes generativos como ChatGPT e Perplexity causaram quedas no tráfego orgânico para sites dependentes de SEO tradicional. O que era fundamental para fazer negócio antes deixa de o ser após a massificação da IA. Uma nova era digital chegou.
A mudança não é só técnica — é emocional. O utilizador quer confiança, não cliques. E é aí que nasce o agente pessoal.
Os grandes perdem vantagem competitiva à medida que os dados envelhecem e os modelos de monetização se transformam. Os pequenos florescem à medida que conquistam clientes. Já não é o motor de busca a sugerir vestidos de verão — é o agente pessoal que conhece o cliente, sabe o que ele quer e o que o faz sentir bem.
Modelos como ChatGPT Plus, Copilot, Gemini e outros Midjourney já provaram que os utilizadores estão dispostos a pagar diretamente por soluções personalizadas. O negócio já não se faz na estatística do click, mas na certeza do agente em quem o utilizador confia. Algoritmos que tentavam adivinhar o que cada um é tornam-se obsoletos quando cada um cria virtualmente um espelho do que é. A adivinhação dá lugar ao pragmatismo.
Durante décadas, os dados foram tratados como ouro. Muitas empresas foram transaccionadas pelo valor da sua base de dados — não pelas operações ou pelo produto. Mas o envelhecimento dos dados pode reconfigurar o mercado. O que era ativo estratégico pode tornar-se passivo obsoleto. E é nessa transformação silenciosa — da base de dados estática para o agente pessoal dinâmico — que se reescrevem as regras da economia digital, e se evita a repetição dos erros de 2000.
O aparecimento da IA levou a uma maior compartimentação de dados. Após o ovo da IA eclodir, muitos fabricantes de conteúdos deram-se conta de que os seus dados haviam sido usados para treinar modelos de terceiros e decidiram fechar a porta. A Internet que assentou as bases na informação aberta e tendencialmente gratuita para o utilizador pode se transformar num número infinito de armários estanques onde a informação se bloqueia até qua alguém pague por ela.
A IA divide o mundo
O problema irá residir sobretudo no acesso ao modelo. A Internet surgiu gratuita no conteúdo mas paga no acesso – via operadores. Países com más telecomunicações tiveram acesso tardio mas isso impactou mais dentro do que fora. Na IA esse acesso tardio pode ser extremamente limitante e afastar ainda mais os países entre eles pelo falta de uns no desenvolvimento da IA.
Vieses de representatividade trarão vieses de pragmatismo. Esta é mais uma das diferenças entre IA e a WWW. Com a WWW cada um poderia crescer ao seu ritmo, com a IA, todos têm que andar a velocidades semelhantes. Os governos terão que investir muito para manterem a sua representatividade numa IA que persegue uma permanente aprendizagem que precisa que todos contribuam para evitar vieses.
Não é uma bolha — é um ponto de partida
A ideia de que a IA está prestes a rebentar como a Internet em 2000 é sedutora, mas profundamente míope. A bolha da Internet estourou porque não havia modelo de receita, nem cliente pagante, nem produto claro. A IA, pelo contrário, nasce com tudo isso: monetização direta, subscrições empresariais robustas, e uma procura real por soluções — não por cliques.
Sim, há riscos. Os custos de treino são elevados, a regulação está a apertar, e nem todos os modelos são sustentáveis. Mas o que está a acontecer não é inflação artificial — é reorganização estrutural. A economia digital está a migrar da estatística para a confiança, da escala para a personalização, da publicidade para o serviço.
Se há algo que pode estourar, não é a IA — é a ilusão de que tudo continuará como antes. O discurso da bolha pode afastar investidores de curto prazo, mas não afastará os empreendedores que já perceberam que o jogo mudou. Porque desta vez, não estamos a assistir ao fim de uma era — estamos a assistir ao início de um novo contrato. Não entre empresas e utilizadores, mas entre tecnologia e realidade.
Artigo publicado na CNN. Veja aqui