O ano letivo começou. Agora, muitos pais estão a pagar por um futuro que já não existe

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O ano letivo não começa só para os jovens. O ano letivo representa mais um ano de investimento financeiro e emocional para milhares de pais. Mas será que estão a investir bem?

O ano letivo começou para os filhos, mas são os pais que vão ter que estudar formas para lidar com mais custos, mais esperas em segunda fila à porta da escola, mais viagens cá-e-lá, mais recusas a jantares e eventos. E talvez, mais ilusões.

Os pais são uma parte absolutamente fundamental do modelo educativo. Pensar ensino sem pensar no impacto que o ensino tem na vida dos pais ou encarregados de educação é arrancar a ferros o mérito de quem realmente suporta um sistema educativo independentemente dos altos e baixos, das queixas e das culpas. “The show must go on”. Sem os pais, o Estado não teria nada de que se gabar.

São estes mesmos pais que nunca desarmam no que diz respeito à educação dos filhos custe o que custar, doa a quem doer. Querem melhor para eles do que querem para si próprios. Foi assim no meu tempo e é assim hoje e é parte do que nos faz humanos.

O ano letivo não começa só para os jovens. O ano letivo representa mais um ano de investimento financeiro e emocional para milhares de pais.

É bom que continuemos a acreditar que vale a pena. Que o esforço compensa e que o melhor futuro se constrói com formação, estudo e qualificações.

Mas será que os pais estão a investir bem?

O prémio salarial dos licenciados face aos não licenciados existe, mas tem vindo a diminuir. Já assim a CNN publicava em 2023.  

Quando vamos a números de empregabilidade, vemos que – ainda – continua a fazer todo o sentido ter o canudo. O desemprego entre licenciados é menor do que o desemprego entre os não licenciados. A taxa de emprego entre adultos com ensino superior em Portugal é de 91%, contra 76% entre os que têm apenas o ensino secundário. Mas todos os números até ao momento ignoram uma nova variável que tem estado em crescimento galopante e que ainda não é mensurável: a inteligência artificial que está a mudar o mundo do trabalho.

Muitos dos empregos para os quais os estudantes estão a ser encaminhados — e que consomem recursos brutais dos pais — já não existem. Parece que existem, mas já não. E os pais continuam a pagar. Pagam com dinheiro, com tempo, com esperança. Pagam por um futuro que não sabem se está à venda.

O Mundo Novo e o crescimento da IA

O Orçamento do Estado para a Educação estima-se em 7,5 mil milhões de euros para 2025. Espero que esteja sentado: estima-se que, em 2030, o investimento em IA ultrapasse os 11 mil milhões de euros, incluindo data centers, infraestrutura e tudo o que gira em torno da inteligência artificial. 

Ou seja, o que se criou em 50 anos na área do ensino vai-se criar em cinco anos na área da inteligência artificial, que por sua vez automatizará rotinas, processos e tudo o demais que retira necessidade de humanos,  ainda por cima de forma semelhante a um humano e menos parecida com um algoritmo.

Está claramente a haver uma prioridade do ponto de vista de investimento em máquinas que aprendem, em detrimento do investimento nos humanos que as ensinam. Este tema tem estado quase completamente afastado do debate público, mesmo no momento em que milhares de alunos se atiram de cabeça para fora dos sonhos que pensam estar a seguir. É preciso falar disto tão urgentemente quanto seriamente. A academia tem que trazer o elefante branco por uma trela para fora da sala.

A oportunidade por detrás do problema

Por entre um silêncio perturbador, a IA vai aumentando monstruosamente. E de tal forma que, após cinco anos, haverá tantos meios para gerar mais IA como meios para gerar mais conhecimento nos humanos. É perturbador — se não for assustador.

Os pais podem de facto estar a fazer um esforço hediondo ao proporcionar aos seus filhos as ferramentas para uma vida melhor, sem saberem que o emprego que esperam proporcionar aos filhos pode já pode ser desnecessário para a sociedade. O retorno dos estudos pode já não estar “garantido” se alguns dos programas escolares e alguns dos cursos se mantiverem. É como estarmos a ensinar milhares de pessoas a revelar rolos fotográficos.

Isto seria um problema — se não fosse também uma solução. É bom que a IA se desenvolva e que nos retire um conjunto de tarefas que não nos acrescem valor pessoal nem profissional. Já todos deram este exemplo, mas eu volto a dar: a máquina de calcular poupou milhares de milhões de horas à humanidade e isso permitiu fazer muito mais com muito menos. É para isso que servem as máquinas, para nos focarmos naquilo em que o ser humano acresce valor.

Os privados estão a investir mais em professores de máquinas do que o público investe em professores de pessoas. Algo não está bem quando descartamos o potencial humano.

A tecnologia retira-nos o foco no porquê e leva-nos a concentrar no “o quê”. A IA não será diferente com uma diferença: é “esperta”. Ao libertar-nos de tarefas repetitivas, como a memorização de dados e a realização de cálculos complexos, a IA permite-nos focar no que nos distingue realmente: a criatividade, o pensamento crítico e a resolução de problemas que exigem a nossa humanidade. A inteligência artificial pode-nos tornar mais humanos para com o humano.

Um ensino desgastado

Quando temos uma tecnologia que aprende por si própria, temos que nos adaptar rapidamente à forma como essa aprendizagem evolui. Quando nos deparamos com os valores de investimento, percebemos que os privados estão a investir mais em professores de máquinas do que o público investe em professores de pessoas. Algo não está bem quando descartamos o potencial humano.

Se o mundo da inteligência artificial vai mudar a forma como a civilização evolui, é fundamental investir igualmente na evolução humana e naquilo que forma as suas bases — não só para garantir emprego, mas também para garantir uma civilização harmoniosa e com poder evolutivo.

Fomos nós, pais, que entrámos pela escola empurrando para este caminho de drenagem das responsabilidades dos professores

Os Estados podem ter que se preparar para investimentos gigantes na transição do ensino atual. Podemos estar a falar em mudanças tais que eliminam por completo o ensino tal como o vemos. Basta pensar que para treinar mais um “professor IA” a debitar matéria bastam poucos milissegundos depois de o agente IA estar criado. Mas então… o que serão os professores do futuro se um click pode gerar uma aula completa e uns óculos de realidade aumentada até nos podem colocar dentro da sala de aula?

Fundamental “desrobotizar” professores

Ao longo dos últimos anos, o espectro de atuação dos professores foi sendo diminuído por pressões sociais e políticas. Os educadores do passado viraram professores do presente — de tal forma robotizados no seu espectro de atuação que podem ser substituídos por uma máquina.

Fomos nós, pais, que entrámos pela escola empurrando para este caminho de drenagem das responsabilidades dos professores. Secar a relevância dos professores pode ter sido um enorme erro — agora que surge uma IA com grande capacidade de “entregar” as hard skills técnicas mas que não conseguirá entregar as sociais e educativas, ou as tais soft skills.

Vamos ter de pensar novamente a quem queremos entregar os nossos filhos. Talvez seja tempo de reconstruir a confiança nas pessoas — porque isso é o que mais nos distingue dos robots. Existe uma clara necessidade de conciliação e articulação dos professores com a Inteligência Artificial, para que o conjunto seja o sistema educativo potente que necessitamos. Desta feita o investimento brutal em IA é também investimento no ensino.

E talvez seja tempo de olhar para os pais. Não como meros pagadores de propinas, mas como os últimos crentes num sistema que já não acredita em si próprio. Porque são eles que continuam a investir — mesmo quando tudo à volta já desistiu.

E agora?

Se queremos que o ensino continue a formar pessoas — e não apenas competências — então há decisões que não podem esperar:

  • Os pais devem exigir que as escolas invistam em competências socioemocionais, pensamento crítico e literacia ética. Porque é isso que prepara os filhos para lidar com máquinas — e com humanos. É a empatia, a resiliência e a capacidade de colaborar que irão definir o sucesso no futuro.
  • O Estado precisa de rever profundamente os programas de ensino, integrando mais psicologia, sociologia, inteligência emocional e filosofia. Não são áreas “genéricas”. São as que nos tornam humanos. E são as únicas que a IA ainda não sabe replicar. São estas áreas que nos permitem criar, inovar e liderar num mundo onde o conhecimento já pode ser gerado em milissegundos.

Artigo publicado na CNN. Veja aqui 

Para uma Inteligência Artificial melhor, Partilha.

Bernardo Mota Veiga

Bernardo Mota veigaStrategicist

*língua original deste artigo: Português

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