Viseu: houvesse uma estratégia e o mundo seria nosso

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O problema não está nos projetos em si — está na ausência de uma visão que os articule. Um mega-complexo desportivo, um centro de espetáculos, um plano de industrialização, ou uma aposta na mobilidade aérea só fazem sentido se estiverem alinhados com uma estratégia clara para a cidade. Sem isso, são peças soltas num puzzle que nunca se completa.

Estratégia, não salgalhada

Viseu (CNN Autárquicas 2025) – Este artigo pode parecer sobre política local, mas é sobre a minha cidade e sobre estratégia — ou a gritante ausência dela em muitas das cidades médias portuguesas.

Olhamos para os programas dos candidatos em Viseu – cheios de méritos – mas não conseguimos encontrar um projeto sólido, uma visão, nem para a cidade nem para o concelho. Tal como numa empresa, confundir tática com estratégia não leva, normalmente, a uma fórmula de sucesso.

Viseu pode ser a cidade-jardim pensada por um candidato, como pode ser a cidade industrial pensada pelo outro. O que não pode ser é as duas coisas, muito menos de forma intermitente, porque isso é o que eu chamo de salgalhada estratégica — que é o mesmo que dizer falta dela. Pior ainda é essa visão poder ser rotativa a cada quatro anos – porque nenhum candidato tem a certeza da governação seguinte, implicando que num ciclo se construam jardins e no seguinte se construam fábricas sobre deles. E tudo voltará ao mesmo, passados mais quatro anos, num ciclo sem fim alimentado pelo modelo governativo sem humildade de reconhecer uma estratégia comum.

O problema não está nos projetos em si — está na ausência de uma visão que os articule. Um mega-complexo desportivo, um centro de espetáculos, um plano de industrialização, ou uma aposta na mobilidade aérea só fazem sentido se estiverem alinhados com uma estratégia clara para a cidade. Sem isso, são peças soltas num puzzle que nunca se completa.

Todas as estratégias são válidas se forem isso mesmo: estratégias de longo prazo.

Como viseense, nem concordo que passemos a ser a cidade das fábricas, dos camiões e dos comboios de mercadorias, nem concordo que sejamos uma cidade com jardins onde pairam os desempregados por falta de oportunidades. Como cidadão, apenas quero que se definam e que se concorde com uma estratégia de longo prazo para a cidade, que depois possa variar ciclicamente na tática aplicada a cada quatro anos, consoante o presidente que governa.

Talento que parte, segurança que fica

O facto é que Viseu tem hoje características únicas. É uma cidade cuja população envelhece a ritmo acelerado, mas é também uma das poucas cidades do interior onde a população aumentou.  No mínimo é estranho! Industrializar Viseu pode não trazer grande vantagem competitiva à cidade, mas deixá-la definhar em emprego também não augurará muito de bom. A cara e a coroa têm que estar na mesma face, não em face opostas da moeda.

Viseu lançou para fora muitos estudantes universitários que não voltaram. Uma emigração forçada, cá dentro. Os alunos foram para Porto, Coimbra, Lisboa, Aveiro, etc. e muitos deles nunca mais regressaram. Temos bastantes exemplos de viseenses de grande sucesso nos Media, Política, Saúde, Construção, Banca – inclusive no Banco de Portugal, e em tantas outras empresas, que nunca encontraram em Viseu a oportunidade de progredir, nem de viver. Perdemos talento em Viseu de cada vez que deixamos sair os bons por falta de oferta e de condições para regressarem.

Com isto quero dizer que Viseu, esta cidade pequena perdida no miolo do retângulo a que chamamos Portugal, tem tudo o que precisa para ser uma das melhores cidades para se viver e para progredir. Tem pessoas francamente boas naquilo que fazem e tem boas pessoas, que não sendo o mesmo, é na mesma importante.

E tem mais: Viseu tem um dos maiores ativos que qualquer cidade pode ambicionar — a segurança.

A segurança em Viseu não é apenas estatística, é sentida. É o que permite que os filhos andem na rua, que os idosos circulem com tranquilidade, que as famílias escolham ficar. Viseu destaca-se por ser um lugar onde se pode viver com paz, sem a falsa ou verdadeira perceção de criminalidade. E isso, por si só, já é uma vantagem competitiva inigualável. A segurança é o cimento invisível de qualquer estratégia urbana — sem ela, tudo o resto colapsa.

Saúde, longevidade ou indústria?

Se a estratégia é fazer de Viseu uma cidade de serviços, que seja isso. Se é uma cidade voltada para a qualidade de vida, que venha isso. O importante é definir a estratégia e depois perceber se vale mais investir num mega-complexo desportivo no Fontelo para uma cidade que está a envelhecer, ou se é melhor investir no aeródromo para ligar Viseu ao mundo. Até podem as duas coisas fazer sentido, mas há que fazer contas e alinhar investimento com estratégia.

Não podemos é ter uma cidade a envelhecer e não ter unidades de serviços continuados, unidades de serviços paliativos, ou sequer condições dignas no hospital para acudir às maleitas da população. Viseu pode ser o sonho de cidade de qualquer reformado, e isso é válido, mas há que rodear a cidade desses mesmos serviços para quem a vida tende a tirar mais do que o que dá. De que me serve um jardim se não posso circular nele porque não tenho quem empurre a cadeira de rodas?

Uma estratégia possível para conciliar a qualidade de vida com a velhice e o aeródromo, é precisamente transformar Viseu numa referência da saúde, com unidades específicas ou mesmo unidades de repouso de referência. O turismo de saúde vale muito dinheiro e, curiosamente, Viseu e o seu Liceu são exemplares na preparação de alunos que seguem a via da Medicina, mas que depois já não voltam.

E há sinais claros de que o mercado existe: todos conhecemos alguém que foi à Turquia fazer implantes capilares, ou à Bélgica para uma cirurgia estética. Há portugueses a viajar para fora por falta de oferta cá dentro — e há cidades como Viseu que podiam ser essa oferta aliando geriatria com estética e tantas outras áreas médicas relevantes. Com qualidade, com escala, com segurança. Com médicos formados fora, mas regressados, a trabalhar cá, a cuidar dos nossos enquanto economicamente crescem com os que vêm.

Como atrair esse investimento? Com parcerias público-privadas, incentivos fiscais para clínicas e centros de recuperação, protocolos com universidades médicas, e até fundos europeus orientados para envelhecimento ativo. Viseu tem a escala certa para ser laboratório nacional de longevidade onde medicina tradicional poderia inclusivamente coexistir com medicinas alternativas em completa articulação com o que de único o concelho pode oferecer.

Mas atenção: o cluster médico é apenas uma das possibilidades. Viseu poderia também posicionar-se como um hub logístico da TAP, aproveitando o aeródromo e a centralidade geográfica para criar um polo de distribuição aérea regional. Ou como um cluster automóvel, ligado à mobilidade elétrica, à montagem de baterias, ou à engenharia de componentes.

A questão não é escolher já — é escolher bem. É perceber se essa estratégia se alinha com os interesses do país, com os recursos da cidade, e com os viseenses. Porque não há uma única estratégia possível, mas tem de haver uma. E ela tem de ser clara, coerente e executável e não pode mudar ao sabor do ciclo político.

Atrair e fixar empresas não é um chavão. É preciso cada vez mais pensar as cidades como clusters de eficiência. Tal como Toulouse é o centro da aviação em França, precisamos de “clusterizar” as cidades do ponto de vista de eficiência económica. Leiria tornou-se referência nos plásticos e moldes, Águeda na metalomecânica e ferragens. Viseu pode muito bem ser uma referência na medicina geral, estética, de recuperação, etc. Um dos melhores centros de medicina de recuperação em Portugal é nas Tochas. Porque não Viseu, o cluster da longevidade e saúde?

E não, isso não significa acabar com a indústria. Pelo contrário: significa atrair a indústria certa que se alinha com a estratégia. A indústria médica, por exemplo, vale muito — e encaixa perfeitamente numa cidade que se posiciona como referência em longevidade, saúde e bem-estar. Manter outras indústrias é essencial, claro. Mas uma industrialização massiva e desmedida pode não trazer os tais salários altos nem o “bom emprego” que se promete. Pode trazer volume, mas não valor. Pode trazer ocupação, mas não retenção. Uma indústria especializada e alinhada com a estratégia local pode testar, implementar, crescer e exportar.

A Vantagem multigeracional: Humanismo e Economia com propósito

E há um detalhe delicioso que diz muito sobre Viseu e sobre os viseenses: Muitos avós reformados de Viseu deslocam-se temporariamente a Lisboa, Porto ou outras cidades para tomar conta dos netos por férias escolares ou por qualquer outra razão. São famílias que vivem em cidades grandes, sem rede de apoio, sem tempo, sem estrutura. E é Viseu que envia os seus reformados — com saúde, com disponibilidade, com sentido de missão — para preencher esse vazio familiar.

Essa mobilidade silenciosa dos avós viseenses é um retrato daquilo que Viseu tem de mais valioso: a família. O apoio intergeracional. A cultura de proximidade. E é também um sinal de que Viseu pode ser muito mais do que uma cidade envelhecida — pode ser a cidade familiar por excelência.

A sociedade multigeracional de Viseu deve ser vista como uma vantagem, uma maior humanidade. A verdade é que as crianças são mais felizes e mais equilibradas quando crescem numa sociedade que sabe cuidar dos seus mais velhos, que valoriza a rede familiar e que não esconde a doença ou a fragilidade.

Uma economia focada no bem-estar multigeracional, como o cluster da longevidade, empurra a educação, o humanismo e a sociologia para crescer a cidade “com propósito” e não obra após obra, sem integração, sem projeção e muitas vezes sem propósito. Não precisamos de chorar a falta de universidade — é bom que os nossos adolescentes saiam e vejam mundo — mas temos que assegurar que regressam para a cidade que os acolhe, para junto da família. Também é bom que estejam ligados ao mundo para trazer mundo bom à cidade. Venha de lá esse comboio e o IP3.

A harmonia não se faz com jardins; faz-se com propósito. Os jardins são um espaço para desfrutar do que a sociedade tem, não geram eles próprios os laços sociais.

A cidade certa para quem quer regressar

Viseu já foi várias vezes distinguida como uma das melhores cidades para se viver em Portugal. Em 2019 e 2021, foi reconhecida pela DECO e outras entidades pela sua qualidade de vida, segurança, mobilidade e ambiente urbano. E não foi por acaso. Foi pela tranquilidade, pela escala humana, pela beleza urbana e pela capacidade de acolher sem se perder. Esses prémios não são apenas troféus — são lembretes de que esta cidade tem tudo para ser um lugar onde se vive bem, e onde se pode viver melhor.

É fundamental uma Viseu ligada ao país por acessos fáceis, rápidos e eficientes. São estradas que permitem sair — mas também convidam a voltar. E que seja então quem vier por bem, quem vier para somar, para cuidar, para construir. Quem vier por mal, é melhor que não tenha grande facilidade em vir. Porque Viseu não precisa de crescer a qualquer custo — precisa de crescer com propósito estratégico.

E talvez este artigo que espero contribuir para todos os candidatos repensarem o seu plano e as suas propostas, seja também para os que cá estão e para os que partiram. Para os que foram estudar, trabalhar, viver noutras cidades, e que olham para Viseu com saudade mas sem plano de regresso. Talvez o regresso não dependa deles — talvez dependa de nós. De criarmos as condições certas, os projetos certos, os serviços certos. De mostrarmos que há aqui uma vida certa, na cidade certa.

Porque Viseu não precisa de escolher entre jardins e fábricas. Precisa de escolher quem quer ser — e dar razões para que os seus filhos que partiram queiram voltar. Voltar antes de serem demasiado velhos para contribuir. Voltar enquanto ainda podem transformar esta cidade que, se for bem pensada, pode ser única.

Uma cidade onde se vive com os filhos, com os pais, com os avós. Onde há tempo para cuidar e ser cuidado, sem pressa e sem culpa. Onde a vida em família não é um luxo — é o normal. Onde o quotidiano tem dignidade, e o futuro tem raízes. Onde ser família é possível, sustentável e, acima de tudo, desejável. Onde se cuida “na saúde e na doença”, como se diz nos votos, e onde todos se tratam pelo nome — porque aqui, as pessoas são pessoas.

Artigo publicado na CNN. Veja aqui

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Bernardo Mota Veiga

Bernardo Mota veigaStrategicist

*língua original deste artigo: Português

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