O colapso mesmo sem pandemia
Em 2020, um vírus forçou o sistema educativo a adaptar-se ao ensino remoto em poucos meses. Em 2025, sem pandemia, 109 mil alunos portugueses iniciam o ano letivo sem aulas a pelo menos uma disciplina, segundo a Fenprof. Cerca de 4709 turmas sem professores a todas as disciplinas e 1397 horários permanecem por preencher. Não é novo, tem sido sempre assim e Portugal não está sozinho: países como o Reino Unido e os EUA e muitos países da UE enfrentam crises semelhantes de escassez de professores. Muito se tem falado, mas talvez poucos tenham lido as 185 páginas do relatório Global sobre Professores produzido pela International Task Force on Teachers for Education 2030 com o suporte da Unesco. Pode lê-lo aqui.
Percebe-se a dificuldade geral, mas não se percebe a falta de soluções gerais num país pequeno como Portugal.
Certo é que não é justo que os alunos percam o seu direito às aulas — sobretudo nas disciplinas fundamentais para o seu projeto escolar e universitário, se o tiverem. Os alunos não deviam concorrer, mas concorrem. Concorrem uns contra os outros por professores melhores, por horários, por equidade, e por lugares nos cursos que escolherm, numa corrida desigual que contradiz o ideal de um sistema educativo justo. Em 2020, o Estado, os professores e os encarregados de educação mobilizaram-se para garantir aulas a dois milhões de estudantes de todos os níveis, mesmo em condições adversas e nunca vividas — dentro de quartos, com telemóveis emprestados e irmãos ao lado. Foi difícil, mas, ainda que com enormes dificuldades e falhas, aconteceu. Havia urgência, vontade e vergonha de falhar.
Hoje, com mais de 20.000 professores disponíveis e todas as escolas abertas e a funcionar, muitos recusam horários por questões de mobilidade ou desadequação geográfica. Surpreende que isto possa ser um problema num mundo tão tecnológico e num país tão pequeno. E os alunos esperam. Esperam por professores como quem espera por comboios que não vêm. Esperam por aulas como quem espera por justiça — sabendo que ela tarda, e que quando chega muitas vezes já não serve. Mas há uma solução ao alcance de todos e que ainda por cima já foi testada por causa de um vírus diabólico que aguçou a vontade e o engenho: ensino remoto, pode ser a ponte para garantir o direito à educação e abrir as portas à evolução.
Aulas remotas: entre o possível e o necessário
Será que não existe uma solução provisória que possa tornar-se definitiva ou pelo menos um teste muito robusto para novas soluções na educação? A Constituição garante o direito à educação, e a tecnologia testada na pandemia oferece um caminho. Por que não otimizar os recursos e permitir, por exemplo, que um professor numa escola transmita aulas em tempo real para outra, a 200 ou 300 quilómetros de distância? Não é o ideal, mas é melhor do que deixar 109.000 alunos a chutar bolas no recreio.
Na Austrália, o programa School of the Air conecta alunos em áreas remotas a professores via rádio e plataformas digitais há décadas. Em Portugal, iniciativas como o programa Escola Conectada já expandiram o acesso à Internet escolar mas parece ter perdido o fôlego. Capacidade técnica não falta e se faltar é mais fácil de resolver do que resolver o problema de habitação de professores, ou formação de novos professores, ou outras soluções que levam tempo e que possam não ser sequer a tendência do futuro. Mas para que o ensino remoto parcial funcione, é preciso mais do que boa vontade.
Há que selecionar e preparar as melhores escolas com salas equipadas com câmaras, microfones e internet estável. Incorporar técnicos de informática para garantir que a ligação não falha a meio da aula. E garantir nas salas recetoras a vigilância necessária através de auxiliares, ou mesmo em professores em período de estágio que poderiam inclusivamente aprender com os professores emissores. A ideia de “levar a aula para outra sala” exige condições mínimas, claro — e essas condições não podem depender da improvisação. Parcerias com empresas digitais, que fornecem equipamentos e treino, podem tornar isso realidade e não só proporcionar aulas aos alunos mas também evolução aos professores.
Obviamente do lado dos professores, os desafios são reais. Como gerir a disciplina e o foco de uma turma a 200 km? Como responder a dúvidas em tempo real, ler o silêncio ou perceber o aluno que está a desligar emocionalmente? A pedagogia é relação, não apenas transmissão. Já existem plataformas de “Salas de aula” específicas e testadas, com chats e interação em tempo real que se podem adaptar tal como dar formação docente específica. São parte essencial para preservar essa conexão que, repito, pode ser provisória nos momentos de falta.
Para os alunos, a equidade é a questão central. Estudantes em salas remotas não terão a mesma experiência de aprendizagem e não será nem fácil nem possível lecionar educação física ou aulas laboratoriais à distância, mas algo é possível fazer. Será mais difícil aos alunos fazerem perguntas e sentirem-se parte da aula mas essa própria experiência remota pode ser positiva para a sua carreira, tal como foi a experiência das aulas remotas durante o tempo Covid o foi-construir resiliência. Um aluno não é um recetor passivo — é um ser em construção. Qualquer ensino remoto deve garantir atenção, dignidade e envolvimento, para que ninguém fique para trás. Não é o mesmo aplicar ensino remoto a todas as disciplinas como já aconteceu, ou aplicá-lo dentro da escola a disciplinas pontuais onde se regista a tal falta de professores.
E se alguém disser que isso é complexo, que não é viável, que não é o momento — convém lembrar que já o fizemos em 2020, em tempo recorde, sem plano, sem rede. Hoje, temos tudo — menos vontade.
A escola pública e a ilusão da igualdade
A crise de professores é mais visível no ensino público, onde 109.000 alunos enfrentam a falta de aulas, enquanto nas escolas privadas o problema é raro. Porquê? Porque os pais que toleram falhas no público exigem soluções no privado. Mas a educação não é um privilégio — é um direito. Os pais têm a obrigação de garantir o ensino até ao 12.º ano, e o Estado tem a responsabilidade de o proporcionar com equidade.
Algumas escolas, públicas e privadas, criam turmas de elite, enquanto outras são negligenciadas, reforçando desigualdades inaceitáveis. Há estabelecimentos que atribuem mais notas máximas do que a média nacional, outras dão notas piores do que a média, distorcendo a competição pelas vagas no ensino superior. Os exames nacionais tentam corrigir essas discrepâncias, mas é tarde demais, os alunos já estão beneficiados ou prejudicados. Uma solução seria introduzir fatores de ajuste nas notas dos alunos, penalizando ou beneficiando escolas com base nos resultados dos exames, promovendo uma avaliação mais justa. Não bastam os exames nacionais quando os alunos já tiveram notas altíssimas e quase garantiram a sua entrada nas vagas.
O ensino remoto pode ser parte da solução de harmonização, reduzindo a dependência de professores locais e levando aulas de qualidade a escolas desfavorecidas, quase sempre no interior onde nem sequer existem escolas privadas. Mas isso exige investimento equitativo, para que todas as crianças, independentemente do estrato social, tenham as mesmas oportunidades de aprender. Sem isso, estaremos a ensinar os alunos que o mérito é uma ilusão — e que a desigualdade é um dado adquirido.
A urgência de redesenhar o sistema
A escassez de professores não é uma surpresa — é uma tendência global, agravada pelo envelhecimento da classe docente, pela falta de atratividade da carreira e pela rigidez na colocação. Continuar a aplicar as mesmas soluções é como tentar curar uma febre com o vírus que a causou.
É hora de pensar fora da caixa. Aulas remotas em tempo real, equipas multidisciplinares, tutoria digital e mobilidade inteligente, como a alocação estratégica de professores com base em necessidades regionais, podem transformar dificuldades em oportunidades. Na Finlândia, programas de tutoria digital têm complementado a falta de professores em áreas remotas. Portugal pode seguir esse caminho.
A escola não é apenas um edifício — é um sistema vivo, adaptável, justo. Cabe aos decisores, aos professores e à sociedade exigir soluções que coloquem as crianças em primeiro lugar. Porque se continuarmos a aceitar que milhares de alunos fiquem sem aulas, estaremos a normalizar o inaceitável. E se a escola não se reinventar, não será a falta de professores que nos condena — será a falta de ousadia para inovar.
Artigo publicado na CNN. Veja aqui