Jornalismo: Hoje não haverá notícias. Apenas as notícias de amanhã.

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Porque quando tudo pode ser falso, tudo é verdadeiro. É segunda feira. Acordou cedo. O rádio passa música, mas não disse que o trânsito da cidade estava completamente parado, estrangulado por uma árvore tombada. Durante a noite houve ventos fortes, mas a ausência de informação faz com que o facto não exista. Por fim, chega ao trabalho e nota que todos se questionam sobre o que terá acontecido, lamuriando-se por ninguém ter avisado.

Nas redes sociais, a razão do trânsito é outra. Consta que foi um atentado. Logo a seguir, circula a história de um atropelamento. Ninguém confirma e ninguém desmente, afinal de contas, ninguém viu a tal árvore porque o trânsito foi desviado. Não há notícias em lado nenhum. Ninguém sabe o que realmente aconteceu a não ser os que moram perto. A realidade já se tornou uma lenda urbana.

Liga o computador. Os sites de notícias desapareceram todos. Os agregadores de informação estão em silêncio sepulcral. Só nos valem as redes sociais, onde proliferam explicações para tudo, menos para o vazio.

Abre o site da bolsa e repara que todas caem 20%. As poupanças parecem estar a colapsar. Tenta abrir o site de notícias financeiras e nada. Está em baixo. Vai ao fórum habitual e encontra 100 explicações para a quebra. Na realidade, ninguém sabe o porquê, porque não houve uma única notícia. Parece que algo está a acontecer, mas não é possível saber o quê. A televisão só passa séries gravadas. Nada atual, nada de hoje.

De hoje, só mesmo as redes sociais.

Lê por lá que os ministros foram todos presos por corrupção. A publicação tem um milhão de likes e 500 comentários. Aparece em todos os feeds, esmagando a publicação de um chefe de governo que afirma que a administração está em plenas funções e que tudo não passou de uma árvore caída. Essa publicação, com “apenas”  30.000 likes, está perdida no mar da irrelevância.

Os algoritmos das redes sociais não têm onde ir buscar a verdade. Assumem que a verdade está do lado dos que têm mais apoiantes. Não existem notícias, só redes e robots que decidem a importância de cada publicação e que a assumem como verdade não factual, mas como verdade intrínseca

Reaparece uma imagem não datada de uma figura política proeminente com eletrodos colados ao peito. Rapidamente, comentários se seguem: “É desta que foi envenenado!” Mais de um milhão de comentários e a subir. Os canais de notícias não dão nada. Os jornalistas não aparecem e não dizem nada e ninguém parece conseguir explicar que a fotografia não é de hoje, mas da ultima campanha eleitoral.

O Preço do crivo social

Esse tal jornalismo… como em tudo na vida, só damos valor quando não o temos. São os jornalistas e os media que asseguram a ordem que evita o caos.

Sem jornalistas, a realidade é sequestrada pela velocidade.

Sem jornalismo, tudo é verdade e tudo é mentira em simultâneo, como o era o Gato de Schrodinger: a nossa realidade está suspensa entre o factual e o fabricado. Sem o poder do jornalismo, vence o poder da ligação. Quem estiver muito ligado, lidera a narrativa, sem que alguém possa dizer se é factual, irónico, ou falso. A verdade não sobrevive sem quem a escreva.

Os jornalistas são os crivos sociais. Para percebermos o seu papel, temos que os retirar de cena e pensar como viveríamos sem poder ir a um canal televisivo, impresso ou digital aferir o que se passa.

De cada vez que se diz que um jornal é tendencioso, precisamos de pensar o que seria se esse jornal não existisse. Ou melhor, se nenhum jornal existisse.

É por isso que o jornalismo é o garante democrático e é por isso que temos que ter vários. Dizem as boas práticas que, num sistema de vídeo vigilância, tem que haver redundância ou seja: uma câmara CCTV tem que estar sempre ao alcance de outra, para que se possa saber quem desligou ou corrompeu a primeira. A pluralidade dos meios de media é isso mesmo: as câmaras uns dos outros.

Mas se os media têm que se autovigiar, imagine agora se eles não existissem, e se vivêssemos apenas ao sabor daquilo que cada um de nós consegue amplificar nas redes sociais.

O valor da verdade

Quando dizemos que o jornalismo é fraco, temos que nos imaginar sem ele, e temos que repensar se lhe estamos a dar o verdadeiro valor. 

Quanto ganha um jornalista, esse tal bastião da democracia? Muito menos do que um comentador e muito menos do que o valor que aporta à sociedade por trazer a verdade “certificada” pelo seu código deontológico e do grupo que representa.

Então, se assim é, porque é que pagamos para ver séries num qualquer meio de streaming, mas não pagamos para saber o que se passa no mundo, longe e perto? Porque pagamos com facilidade a fantasia do entretenimento, mas não pagamos a verdade dos factos?

A nossa interpretação de valor deixou de fora uma classe que é tão importante quanto fundamental. Deixamos de fora a necessidade de ter muito bons jornalistas, muito bem pagos para que não hesitem na verdade. Claro que o jornalismo se tem enfraquecido, mas justo é tirar o chapéu aos que se mantêm numa actividade que é raramente lucrativa porque o “cliente” simplesmente não quer pagar.

Há bons e maus jornalistas, mas num mundo em que nem bons nem maus são valorizados economicamente, acabaremos por ter apenas os maus antes de acabarmos por não ter nenhuns. Se o jornalismo é o garante da democracia e LIBERDADE, temos de pagar o seu preço justo. Caso contrário, a próxima segunda-feira será a última em que conseguiremos acordar na realidade.

Para uma Inteligência Artificial melhor, Partilha.

Bernardo Mota Veiga

Bernardo Mota veigaStrategicist

*língua original deste artigo: Português

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