2025: como ler o mercado num ano em que os chips engoliram tudo
Vivemos uma transformação silenciosa, mas brutal. A inteligência artificial deixou de ser uma promessa e passou a ser uma força transversal — contaminando setores, reconfigurando cadeias de valor e acelerando tudo, e criando enormes disrupções no espaço, mas deixando de fora uma variável que muitos parecem ignorar: o tempo.
A IA exige velocidade máxima de processamento, e essa velocidade não depende apenas de chips ultrassofisticados— depende de infraestruturas físicas, de energia, de licenciamento, de refrigeração, de conectividade, de pessoas. Tudo isso leva tempo a construir e no mundo da IA, tempo é dinheiro e é mesmo muito dinheiro — e é vantagem competitiva. Quem já tem os ativos operacionais, ganha a corrida, quem tem agilidade para os desenvolver rapidamente ganhará mais à frente, e quem tem na mão as componentes críticas para a materialização dos ativos, apenas tem que esperar sentado que os desesperados por tempo lhe batam à porta.
Foi com esta lente que revi as minhas teses de investimento para 2025. E os dados são claros.
Retrospetiva estratégica
Em janeiro, escrevi aqui sobre as minhas áreas preferenciais de investimento para 2025 – tomara eu acertar em metade no próximo ano: mineradoras e acumuladoras de bitcoin, computação quântica e inteligência artificial. Não sei se foi um artigo muito lido, mas chegados quase ao final do ano, os dados são inequívocos:
As empresas mais relevantes de mineração de bitcoin dispararam — muitas com valorizações superiores a 150%. No campo da computação quântica, embora ainda seja um nicho com poucas empresas cotadas, entre as mais relevantes todas subiram bastante com subidas a passar os 400%. Quanto à inteligência artificial, sobretudo na área dos chips que eu referenciei no artigo, as valorizações foram tão badaladas e amplamente discutidas que nem vale a pena repetir. Mas mesmo fora do hardware, encontramos empresas ligadas a modelos de voz, segurança por imagiologia, aplicações para defesa, seguros, entre outras, com valorizações superiores a 100%. Algumas mesmo muito acima.
A única tese que não entregou rentabilidades fortes — pelo menos até agora — foi a das Bitcoin Treasuries, ou seja, as empresas que acumulam bitcoin como reserva. Há razões para isso mas não suficientes para me fazer abandonar a teoria.
Até finais de setembro estive lá, onde disse que ia estar, e funcionou muito bem mesmo num ano tão marcado por oscilações, pânicos, tarifas e tanto ruído em torno de tanta coisa, mas entretanto, muita coisa mudou e eu mantive a estratégia mas mudei a tática.
Os mercados antecipam o mundo
Os mercados financeiros têm algo de fascinante: antecipam o que o mundo está a cozinhar. Todos tentam ser os primeiros a apanhar os rockets — e os primeiros a largar o lastro no pico da parábola. Há sempre especulação pelo meio, claro, mas é precisamente ao espremer essa espuma que conseguimos perceber o que realmente está a acontecer.
É por isso que continuo a defender uma abordagem de investimento em duas fases: primeiro, uma leitura macro-setorial; depois, uma análise exaustiva das empresas. Não faço análise técnica. Invisto no negócio, na equipa de gestão, nos recursos humanos, na visão e na capacidade de entregar.
Depois das férias, e durante o mês de setembro, mudei as agulhas por duas razões: muitas das empresas que acompanhava estavam já demasiado “inchadas” em termos de preço versus valor, versus tempo, e versus espaço, e comecei a ver uma tração brutal na área dos chips mas que se poderia estar a estender muito mais do que o que eu havia pensado— na realidade quase todos os sectores estão a ser afetados pelo que se passa com a IA, e com os chips.
Chips: o novo petróleo
Uma das principais plataformas de inteligência artificial anunciou uma compra monumental de chips a um dos maiores fabricantes de unidades gráficas, com entrada no capital incluída na compra. O governo norte-americano reforçou a sua posição num dos históricos fabricantes de semicondutores. Logo depois, outro gigante da aceleração computacional também anunciou entrada no capital dessa mesma empresa.
Não vou listar todos os movimentos — são muitos — mas é claro que este é o setor quente. Mais claro ainda: a capacidade de computação global vai crescer muito mais do que os gráficos que nos têm mostrado. O fabrico de chips está ao rubro e a Inteligência Artificial depende deles. Sem um não existe o outro.
Mas há uma camada mais profunda: os chips são o novo petróleo. Tal como o petróleo moldou a geopolítica do século XX, o controlo da produção de chips — e das máquinas litográficas e demais componentes necessários ao seu fabrico— está a moldar o século XXI. O eixo EUA–China–Taiwan tornou-se o novo ponto de fricção estratégica. Já não se trata apenas de tecnologia — trata-se de soberania.
O chip deixou de ser apenas um ativo de investimento. É agora um ativo soberano. Quem controla a capacidade de fabrico, controla a velocidade da inovação, a segurança nacional, e a competitividade económica. E essa corrida já começou.
Data centers: o músculo invisível
Os chips, por si só, não fazem nada. Precisam de placas, armários, cabos, energia, fibras óticas — e acima de tudo, precisam de estar integrados em data centers.
As grandes compras de chips significam uma explosão na procura por capacidade instalada. Mas construir um data center leva tempo. Muito tempo. E no mundo da inteligência artificial, tempo é dinheiro — e é vantagem competitiva. A IA exige máxima velocidade de processamento, e qualquer atraso na infraestrutura cria um gargalo operacional.
Quem já tem data centers operacionais está numa posição privilegiada: poupa anos de licenciamento, milhões em CAPEX e ganha tempo de mercado. Quem tem o data center hoje, ganha a corrida e é aqui que entram muitos dos mineiros de bitcoin. Já possuem enormes instalações, com energia, refrigeração, licenciamento e infraestrutura pronta. Estão perfeitamente posicionados para alimentar a sede de IA — não pelos chips que têm, mas porque já têm tudo o resto. Trocar um chip é fácil. Construir um data center não.
Ouro: reserva de valor ou matéria-prima?
A geopolítica recente gerou uma corrida ao ouro. Mas, na minha leitura, não é o medo que está a puxar o preço — é a indústria.
Cada chip pode conter até cinco dólares de ouro. Parece pouco, mas a eletrónica consome cerca de 10% do ouro mundial e duplicando a eletrónica vai aumentar desproporcionalmente a necessidade de ouro. A efervescência nos chips, impulsionada pela IA e consolidada nos data centers, pode estar a atrair novos compradores: não investidores defensivos, mas fabricantes que precisam de garantir stock.
O ouro como reserva de valor pode estar a competir pelo stock mundial com a reserva que agora passa a estar dentro de um chip. A subida do ouro pode ter mais a ver com a mudança no perfil de utilização do que com uma nova abordagem ao seu valor.
Muito se tem escrito sobre a subida do ouro como proteção, mas o ouro não subiu com o conflito na Ucrânia que começou há largos anos, nem com a Covid, nem mesmo com o conflito em Gaza. O ouro começou a subir exponencialmente quando começaram a subir as projeções para IA e chips. Um dos conflitos está resolvido e o ouro não desceu, nem descerá quando o outro se resolver. O Ouro é peça chave na evolução da IA.
Prata: a confirmação silenciosa
A prata confirma esta tese. É igualmente fundamental na nova geração de chips e poderá haver quem esteja a garantir stock de industrialização e não a produzir salvas ou brincos de prata. O mercado começou por ordem dos bens mais escassos para o fabrico de chips. Primeiro o ouro, depois a prata. A atual subida da prata até pode ser mais espetacular se considerarmos que a prata tem um uso industrial bem mais alargado e que essas industrias não estão propriamente pujantes atualmente. mesmo assim a prata sobe e a subida da prata pode não ser especulativa — pode ser industrial.
Depois temos o outro exemplo, o paladium. Esse tem descido apesar da sua raridade e uso igualmente relevante nos chips, acontece que muito paladium vai ser deixado de usar em catalisadores de automóveis a combustão libertando disponibilidade para os chips.
Energia: o regresso do nuclear
Falar disto dói-me, por razões óbvias profissionais, mas o setor da energia — mais concretamente o da energia nuclear de pequena dimensão (SMR, Small Modular Reactors) — está em força.
Só em Portugal, os pedidos de ligação à rede elétrica para novos data centers já equivalem à totalidade da capacidade instalada do país. Se todos fossem construídos, duplicaríamos a nossa necessidade energética. Agora multiplique isto pelo mundo fora.
Esta pressão está a reanimar o setor nuclear, agora com uma nova geração de micro e nano reatores. Muitos projetos de data centers já consideram acoplar produção nuclear para acelerar a construção e reduzir dependência da rede elétrica. O nuclear foi reavivado pela IA e negá-lo é enfiar a cabeça na areia.
As renováveis — nomeadamente a solar e eólica — continuarão a ter um papel fundamental como até aqui, mas neste momento, a fúria dos investidores está mesmo voltada para os SMR. E não parece que vá abrandar.
Verticalização: o novo jogo de poder
O acesso a financiamento é tão abundante que os grandes operadores de inteligência artificial estão a verticalizar como nunca se viu. Entram no capital de fabricantes de chips, compram infraestruturas críticas. Investem em sistemas de produção de energia — incluindo reatores modulares próprios. E, na minha leitura, estão também a acumular matérias-primas estratégicas.
Mas esta verticalização não é apenas uma questão de eficiência. É uma forma de garantir fornecimento num ecossistema cada vez mais complexo e restrito. A cadeia de valor da IA — que inclui chips, energia, data centers, conectividade, refrigeração, licenciamento e segurança — tornou-se tão sensível que depender de terceiros já não é viável.
Estamos a assistir à construção de ecossistemas fechados, onde cada operador soberano controla a sua própria capacidade de computação, energia e infraestrutura. Esta mudança é estrutural. Já não se trata de competir por mercado — trata-se de garantir autonomia operacional, soberania digital e velocidade de execução.
Este setor está a contaminar transversalmente toda a economia. Está a reconfigurar cadeias de valor, a fundir tecnologia com energia, e a transformar empresas em operadores soberanos.
Perceber quem são os intervenientes em cada ponto desta cadeia pode ser a diferença entre investir para 3 dígitos de rentabilidade ou apenas para bater a taxa de juro.
Nem todas as razões que parecem lógicas são as razões reais para o que se passa nos mercados.
Nestes momentos de transição, haverá sempre muitos condenados ao obsoletismo, os que ficam para trás. Por isso, o mais importante é estudar, estudar, estudar — ou recorrer a quem estuda por nós.
Artigo publicado na CNN. Veja aqui